Tag Archive 'referendo'

Feb 12 2007

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Bruno Afonso

O nao como inimigo, chocolates e os 100 metros finais

Filed under Bujardas das fortes

Decidi ver o que o nytimes.com diz sobre as nossas eleicoes. Alem dos comunicados da reuteurs, AP, etc, ha’ reportagens de jornalistas que pertencem ao nytimes. Por vezes e’ interessante ver o que as pessoas distantes dos paises dizem porque olham de forma diferente, nao necessariamente mais lucidas e/ou iluminadas por isso, mas ‘as vezes acontece. Elaine Sciolino escreve no seu artigo alguns pontos importantes:

In many urban centers, the margin in favor of changing the law was much higher than at the national level. In Lisbon, for example, 71.5 percent voted in favor, 28.5 percent opposed; in Faro, in the Algarve region of southern Portugal, 73.6 percent were in favor, 26.4 percent opposed.

Faltou aqui fazer uma analise importante (que tem relevancia, ver adiante) das tendencias de voto em funcao do rendimento per capita do concelho e/ou freguesia e do nivel de educacao. O mesmo devia ser feito em relacao ao nivel de abstencao.

Supporters and opponents of abortion, political commentators and pollsters attributed the lack of voter participation to the episodically rainy weather, voter apathy and even ignorance.

Isto e’ uma vergonha pegada de comentario que eu ouvi durante a tarde das eleicoes. A chuva? A CHUVINHA? Foda-se. Haja vergonha.

“There are two Portugals, the Portugal of the elite — politicians, newspapers and television — and the Portugal of the people,” said João Marcelino, director of the mass-circulation daily tabloid Correio da Manhã. “The people are more concerned about unemployment, their salaries, the health system. The real country doesn’t consider the issue of abortion important.”

Penso que aqui se toca num ponto fulcral. Ha’ muito que Portugal aceita o aborto, tanto que nao o criminaliza “na pratica” - as mulheres nao passam tempo na cadeia por isso, apenas chatices em tribunais, etc. Nao deixa de ser vergonhoso que isso aconteca e por isso mesmo se referendou de novo. No entanto, ha’ claramente outros aspectos de maior importante que este referendo. Na realidade, ao contrario da chuvinha, penso que ha’ pessoas que pensam que este assunto ha’ mto devia estar resolvido e por isso nem se dignaram a ir votar. Mas em democracia e’ preciso ir votar, sempre. Seja ou nao importante face a outras coisas, seja ou nao algo inconscientemente decidido pela sociedade.

Portugal is also the only European Union member that has put on trial women who undergo illegal abortions, the health care providers who perform them and even “accomplices” like husbands or family members who might accompany them to backstreet abortionists.

E’ sempre importante frisar isto. Nao e’ que Portugal deva seguir as pisadas de todos os outros paises - ditos evoluidos por alguns - de todo. No entanto, e’ com grande alegria que deixo de ter vergonha do meu Pais no que concerne a esta questao, ao deixar de criminalizar as mulheres. Vi um pouco de um pros e contras que esta’ online no site da rtp. Vi pouco pois pouco sumo se retirava de praticamente qq intervencao (especialmente do nao) efusiva. No entanto, um ponto interessante foi alguem lembrar-se que quando se instituiu a possibilidade de divorcio tambem foi uma grande polemica. No entanto, o pais evoluiu de mentalidade e hoje ninguem poe esse direito em questao.

Quem ganhou neste referendo foi a abstencao, perdendo a democracia. Nao deixa de ser preocupante um pais que apenas pode votar livremente ha’ pouco mais de 30 anos ja’ ter estes niveis de marimbamento na ida ao voto. Ganhou tambem o repudio pela imposicao de moralidades que muitos viram renascer com a vitoria tangencial do nao na ultima eleicao.

Acho que este referendo presenciou do melhor e pior que se pode fazer num regime democratico. Embora o apoiantes do nao tenham excedido os limites do razoavel - e da racionalidade - nos seus argumentos em muitas ocasioes, tambem muitas pessoas terao mudado o seu voto para o nao face a muitos argumentos extremistas - e nao menos irracionais - de apoiantes do sim. Este referendo fomentou tambem a criacao de uma arena de discussao para tudo menos a questao que estava a ir a votos. E’ claro que a sociedade portuguesa quer debater e estar mais envolvida na politica. Ou, assim podemos ser levados a concluir desta fome inesgotavel de protagonismo e opinion-makers. Faltou no entanto correr os ultimos 100 metros. O pegar no carro (sem apanhar chuva portanto!) e ir la’ colocar a cruzinha.

Fica a duvida se a fome foi devido a estarmos a discutir assuntos nos quais todos nos sentimos aptos a opinar ou se a sociedade portuguesa esta’ realmente a interessar-se mais pela politica. Quero acreditar ingenuamente na segunda opcao. Quero especialmente acreditar que a fome nao e’ por termos discutido chocolate de supermercado mas que se vai manter quando tivermos que degustar alimentos menos saborosos. Todos sabemos debater sobre um chocolate, mas digerir um cozinho ‘a portuguesa ja’ envolve investir tempo na preparacao e digestao. Em todo o caso, os 100 metros serao sempre precisos correr de barriga cheia ou nao.

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Jan 29 2007

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Bruno Afonso

E ainda diz que nao e’ bom actor…

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Jan 28 2007

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Portugal dos parolos

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DN Online: Quem votar ’sim’ fica sem funeral religioso:

Algumas perolas:

“Os cristãos que vão votar ’sim’ no referendo serão alvo de excomunhão automática, a mais pesada das censuras eclesiásticas”, garante o cónego Tarcísio Alves, pároco há cinco anos em Castelo de Vide (Portalegre). A excomunhão automática atinge ainda “todos os intervenientes na execução do crime, como, por exemplo, médicos e enfermeiros”, sublinha, enquanto consulta página a página o Código Canónico.

perto do final do artigo le-se:

A comunidade católica de Castelo de Vide encara estes “avisos” de
forma natural e aplaude a atitude do cónego. “Acho bem que expliquem os perigos do aborto às pessoas, principalmente a nós, os mais velhos, que nunca estudámos. O que sabemos é através daquilo que vemos na televisão”, diz Piedade Godinho à entrada da igreja.

O grave e’ mesmo as pessoas que nunca estudaram acharem que podem aprender algo na Igreja a este respeito. O que e’ mais grave ainda e’ a igreja admitindo que as pessoas que nunca estudaram devem ser guiadas nao proporcionarem condicoes de as pessoas serem educadas por opinioes independentes e nao apenas pro-nao.

Mas nada e’ mais grave do que Portugal ser ainda em mtos lados uma provincia do Vaticano onde de facto uma religiao tem poder a mais. Costuma-se dizer que o Islao como religiao nao e’ problema, mas o Islao como governo sim. E’ caso para dizer que a Igreja Catolica como religiao nao tem problema, mas como poder local sim.

Acabamos de descobrir mais uma vantagem de votar sim: Ser automaticamente excomungado e poder escolher livre de constrangimentos outra religao menos descolada da realidade.

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Jan 23 2007

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Bruno Afonso

Eu sabia que nao conseguia resistir… Aborto redux

Pois bem, o meu amigo respondeu-me:

Bom…não me vou alongar sobre o que tu disseste caro Bruno…
Prefiro pensar na humilhação dos bébés que esses sim não têm direito a
nada segundo a lei que para ti deve ser muito progressista…embora
seja óbvio que não é assunto fácil para muitas mulheres…
Mas não é nos tempo dificeis que se vê a grandeza humana
particularmente a feminina neste caso???
Enfim…acho piada chamar retrógado um movimento a favor da vida…
Abraços e votem bem…

Eu nao resisti a responder-lhe (aqui com ligeiras alteracoes):

Amigo, fui demasiado curto no meu primeiro email…

Os bebes nao podem ser consideradas entidades humanas pois ainda nem sequer tem um sistema nervoso central funcional bem como outras caracteristicas que realmente definem o ser humano. Mas esta definicao e’ pessoal e por isso mesmo de alguma forma intransmissivel a outros. A tua nocao de vida e’ diferente da minha como de outra pessoa qualquer pois extravaza qualquer nocao puramente cientifica (e isto e’ um biologo que te escreve…). Por outro lado, nao e’ isto que esta’ em discussao, mas sim se a mulher deve ser julgada e penalizada. Nada mais. E este e’ o erro de grande parte das pessoas, discutirem algo que nao esta’ a ser levado a votos.

Achar que a penalizacao das mulheres as vai fazer mudar de opcao quanto a abortar ou nao e’ do mais ingenuo possivel. As mulheres abortam em portugal como abortam em qualquer lado do mundo. As mulheres em Portugal quando chegam a ir a julgamento nem sequer sao condenadas a nada na pratica. Este referendo e’ apenas a formalizacao do que a sociedade ja’ decidiu inconscientemente e que nao foi formalizado porque o ultimo referendo foi realizado em plena altura de pico balnear.

O movimento pelo “Nao” parte do principio que as mulheres na sociedade de hoje em dia vao mudar e deixar de abortar em funcao da lei actual. Isso esta’ profundamente errado e so’ mostra uma descolagem total do que e’ a realidade portuguesa, especialmente nos ambientes desfavorecidos. Muitas das pessoas que tu ves nos movimentos do sim se calhar foram a espanha abortar numa clinica privada e de luxo. (este sketch do gato e’ comico mas se calhar cheio de verdade)

As mulheres nao vao deixar de abortar e esta lei apenas penaliza as mulheres que abortam e nao tem dinheiro para contornar o sistema. Eu vi no Porto uma mulher a esvair-se em sangue na rua a 100m do hospital de Sto Antonio. Tinha abortado provavelmente numa esquina ou num andar do predio da rua. Esta visao colocou toda uma realidade que eu tinha numa perspectiva diferente.

Nao subestimes as mulheres que abortam e nao tentes impor-lhes moral. Nao tens autoridade para o fazer (nem tu nem ninguem). Eu nao sou mulher, mas imagino que deve ser a decisao mais dificil e marcante da vida de muitas mulheres que abortam. Claro que ha’ mulheres para quem isto nao se aplica mas tambem ha’ pessoas a quem nao lhes faz diferenca matar ou aleijar seres humanos. No entanto, a esmagadoria maioria dos seres humanos que podem abortar - leia-se mulheres - sao pessoas a quem este assunto - caso seja colocado em cima da mesa - ira’ provocar uma profunda reflexao pois fruto decisao surgem marcas para toda a vida, independentemente da opcao. Achei bastante pertinente as entrevistas que a TSF fez num especial deles a respeito deste assunto.

Falar de um “movimento a favor da vida” e’ algo abstracto e etereo. Na realidade, a favor da vida da crianca ou da mulher neste caso concreto? Se for da crianca pq e’ que estes movimentos nao promovem com a mesma pujanca uma lei que obrigue o estado a dar apoio psicologico e financeiro a qualquer crianca portuguesa ate’ aos 18 anos de idade? E aqui podiamos pedir mais 500 leis. Se a sociedade quer condenar as mulheres que abortam entao tera’ que proteger ao maximo as consequencias *praticas* disso. E talvez seja por ai que se deva comecar, por proteger as criancas de mulheres “moralmente correctas” que nao abortaram e cujas criancas estao na rua a venderem droga ou a prostituirem-se para ganharem para comer.

Moralmente, eu tambem acho que todas as criancas deviam nascer e nao devia existir necessidade de recorrer ao aborto. Sinceramente, conheces-me e nao te estou a mentir. Eu gostaria que nenhuma mulher realizasse um aborto em toda a sua vida. No entanto, nao e’ isso que esta’ a ser discutido. O que esta’ a ser discutido e’ se as que os realizam devem ser penalizadas. Nada mais. E isso ja’ a sociedade decidiu ha’ muito, apenas e’ necessario passar ao papel.

A moralidade nao se impoe com leis e este assunto e’ um exemplo perfeito disso. As mulheres portuguesas abortam diariamente. A despenalizacao apenas vai permitir ‘as mulheres menos afortunadas que o facam em melhores condicoes. Nao e’ esta lei que vai fazer com que as mulheres abortem mais ou menos, isso e’ gritantemente ingenuo. Esta e’ uma decisao pessoal que se baseia em principios morais e eticos, todos eles basilares ao ser humano. E’ por isso mesmo que estes argumentos sublimam qualquer lei da sociedade ‘a qual se pertence quando chegar a altura da decisao.

isto foi escrito de rajada…

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Jan 23 2007

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Bruno Afonso

referendo sobre o aborto

Hoje um dos meus melhores amigo mandou uma msg para todos os seus contactos apelando ao NÃO com links para youtubalhadas e tudo. Durante todo este tempo mantive-me ‘a parte da discussao devido a duas razoes:

1) Falta de seriedade generalizada na discussao da materia. A juntar ‘a falta de seriedade e’ a confusao generalizada do que se deve realmente discutir e do que vai a votos: A despenalizacao perante a lei Portuguesa da mulher se praticar o acto em si.

2) Uma vez que nao posso ter um papel activo na campanha devido a estar do outro lado do atlantico e a querer ter apenas me poderia cingir realisticamente ao meu blog e/ou ‘a partipacao noutros blogs/sites. Ora, como eu nao escrevo suficientemente bem para ter um impacto com a minha escrita, nao faz sentido. O estilo “escrever para chocar” nao se afigurou como opcao e eu pessoalmente dispenso.

E’-me dificil discutir assuntos que me parecem totalmente obvios por intermedio da escrita. Por isso, a unica coisa que respondi ao email do meu amigo e a todas as pessoas visadas no seu email (Reply to All yeah baby!) foi:

“Tens razao, ja’ esta’ na altura de Portugal deixar de ter uma lei retrograda e que humilha as mulheres. :-)”

Basicamente e’ tudo que vou dizer sobre o assunto. Existem 4478 posts (neste momento) na blogosfera escrita em portugues indexados pelo technorati, acho que se querem ler mais, podem comecar por ai :-)

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