O nao como inimigo, chocolates e os 100 metros finais
by bruno
Decidi ver o que o nytimes.com diz sobre as nossas eleicoes. Alem dos comunicados da reuteurs, AP, etc, ha’ reportagens de jornalistas que pertencem ao nytimes. Por vezes e’ interessante ver o que as pessoas distantes dos paises dizem porque olham de forma diferente, nao necessariamente mais lucidas e/ou iluminadas por isso, mas ‘as vezes acontece. Elaine Sciolino escreve no seu artigo alguns pontos importantes:
In many urban centers, the margin in favor of changing the law was much higher than at the national level. In Lisbon, for example, 71.5 percent voted in favor, 28.5 percent opposed; in Faro, in the Algarve region of southern Portugal, 73.6 percent were in favor, 26.4 percent opposed.
Faltou aqui fazer uma analise importante (que tem relevancia, ver adiante) das tendencias de voto em funcao do rendimento per capita do concelho e/ou freguesia e do nivel de educacao. O mesmo devia ser feito em relacao ao nivel de abstencao.
Supporters and opponents of abortion, political commentators and pollsters attributed the lack of voter participation to the episodically rainy weather, voter apathy and even ignorance.
Isto e’ uma vergonha pegada de comentario que eu ouvi durante a tarde das eleicoes. A chuva? A CHUVINHA? Foda-se. Haja vergonha.
“There are two Portugals, the Portugal of the elite — politicians, newspapers and television — and the Portugal of the people,” said João Marcelino, director of the mass-circulation daily tabloid Correio da Manhã. “The people are more concerned about unemployment, their salaries, the health system. The real country doesn’t consider the issue of abortion important.”
Penso que aqui se toca num ponto fulcral. Ha’ muito que Portugal aceita o aborto, tanto que nao o criminaliza “na pratica” – as mulheres nao passam tempo na cadeia por isso, apenas chatices em tribunais, etc. Nao deixa de ser vergonhoso que isso aconteca e por isso mesmo se referendou de novo. No entanto, ha’ claramente outros aspectos de maior importante que este referendo. Na realidade, ao contrario da chuvinha, penso que ha’ pessoas que pensam que este assunto ha’ mto devia estar resolvido e por isso nem se dignaram a ir votar. Mas em democracia e’ preciso ir votar, sempre. Seja ou nao importante face a outras coisas, seja ou nao algo inconscientemente decidido pela sociedade.
Portugal is also the only European Union member that has put on trial women who undergo illegal abortions, the health care providers who perform them and even “accomplices” like husbands or family members who might accompany them to backstreet abortionists.
E’ sempre importante frisar isto. Nao e’ que Portugal deva seguir as pisadas de todos os outros paises – ditos evoluidos por alguns – de todo. No entanto, e’ com grande alegria que deixo de ter vergonha do meu Pais no que concerne a esta questao, ao deixar de criminalizar as mulheres. Vi um pouco de um pros e contras que esta’ online no site da rtp. Vi pouco pois pouco sumo se retirava de praticamente qq intervencao (especialmente do nao) efusiva. No entanto, um ponto interessante foi alguem lembrar-se que quando se instituiu a possibilidade de divorcio tambem foi uma grande polemica. No entanto, o pais evoluiu de mentalidade e hoje ninguem poe esse direito em questao.
Quem ganhou neste referendo foi a abstencao, perdendo a democracia. Nao deixa de ser preocupante um pais que apenas pode votar livremente ha’ pouco mais de 30 anos ja’ ter estes niveis de marimbamento na ida ao voto. Ganhou tambem o repudio pela imposicao de moralidades que muitos viram renascer com a vitoria tangencial do nao na ultima eleicao.
Acho que este referendo presenciou do melhor e pior que se pode fazer num regime democratico. Embora o apoiantes do nao tenham excedido os limites do razoavel – e da racionalidade – nos seus argumentos em muitas ocasioes, tambem muitas pessoas terao mudado o seu voto para o nao face a muitos argumentos extremistas – e nao menos irracionais – de apoiantes do sim. Este referendo fomentou tambem a criacao de uma arena de discussao para tudo menos a questao que estava a ir a votos. E’ claro que a sociedade portuguesa quer debater e estar mais envolvida na politica. Ou, assim podemos ser levados a concluir desta fome inesgotavel de protagonismo e opinion-makers. Faltou no entanto correr os ultimos 100 metros. O pegar no carro (sem apanhar chuva portanto!) e ir la’ colocar a cruzinha.
Fica a duvida se a fome foi devido a estarmos a discutir assuntos nos quais todos nos sentimos aptos a opinar ou se a sociedade portuguesa esta’ realmente a interessar-se mais pela politica. Quero acreditar ingenuamente na segunda opcao. Quero especialmente acreditar que a fome nao e’ por termos discutido chocolate de supermercado mas que se vai manter quando tivermos que degustar alimentos menos saborosos. Todos sabemos debater sobre um chocolate, mas digerir um cozinho ‘a portuguesa ja’ envolve investir tempo na preparacao e digestao. Em todo o caso, os 100 metros serao sempre precisos correr de barriga cheia ou nao.
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Comments
Bruno, hoje estive a conversar um bocadinho com a minha mulher a dias, uma senhora de 70 anos toda despachada que, tal como o marido, não foi votar. Porquê? Porque sendo contra o aborto não se sente no direito de se imiscuir na vida e nas decisões de outras mulheres, de modo que, embora emotivamente lhe custasse votar sim – não me pus com tretas pseudo-jurídicas para contestar esta sua decisão, temos de saber com quem estamos a falar -, a sua experiência de vida impedia-a de votar não. E por isso, disse-me ela, não foi. Creio que esta senhora representará uma boa parte do nosso povo
Eu acho que é impossível saber o que vai na cabeça de todas as pessoas que não foram votar. Os meus avós não foram, porque o meu avô nem compreende o que se está a votar. Já a minha avó acha que agora com o aborto ainda vai diminuir mais a natalidade… Além disso sendo ela altamente católica, imagino a mossa que os dizeres da igreja lhe fizeram. Além disso, as suas idades acima de 80 anos também fazem com que seja complicado levá-los. E não foram.
Mas tenho a certeza que haverá muitos outros casos. A começar naqueles que não sabiam para onde pender e com os que não têm “fé” nenhuma no que quer que tenha a ver com política.
Também deve haver os que passaram o domingo na net, ou deitados no sofá a ver os filmes da tarde (a Julia Roberts no “Erin Brokovich”)…
Essas leituras que os críticos fazem sinceramente são extrapolações para o que se quiser. Acho é grave é que se importem mais com que não foi votar do que com quem tomou a sua decisão e levantou o rabo da cadeira para ir votar. Se para elegermos todos os governantes deste país a abstenção nunca foi problema, então quem quer decidir uma lei e vai votar também devia ter o poder nas mãos.
O Correio da Manha??!!?
Com estas fontes nao e’ de estranhar a ma’ imagem de Portugal no estrangeiro.
Cada vez mais considero a hipótese de tornar o voto obrigatório.
Eu acho que quem não vota, não pode criticar. Eu trabalhei no domingo, saí as 16h e fui directo à escola de Azambuja para votar. Quem não vota é por comodismo, tirando excepções de doenças, e quem não está de acordo com nenhuma vota nulo, mas vai lá.
Tive pena que o sim tenha ganho, mas a democracia é isto mesmo. Gostava que os resultados fossem vinculativos, não gosto de meios termos.
Desde ja’ fico contente pelo debate que o post gerou. Luna, nao me parece que o argumento da senhora faca mto sentido. O que estava em questao nao era estar a favor ou nao. Afinal, quem esta’ contra continuara’ a nao faze-lo. Argumento usado ad nauseum nesta campanha que nao tem pes nem cabeca. Se nao queria impor a sua vontade entao devia mesmo era ter ido votar sim para cada um julgar-se a si proprio e decidir em consciencia.
Susana, nao concordo contigo. Em primeiro lugar, eu nao me pus a examinar em detalhe as razoes que levaram as pessoas a nao votar. Apenas concordo que as pessoas estarao provavelmente mais preocupadas com outras coisas, sim. No entanto, o que me choca e’ que tu aches que nos deviamos preocupar com quem foi votar! Na realidade, votar e’ algo que devia ser normal numa sociedade democratica. Eu acho que a abstencao e’ uma posicao democratica em si, mas tb duvido que as pessoas o tenham feito como posicao. Na realidade, preocupa-me imenso a abstencao. E’ a abstencao que faz com que sejam hoje em dia os menos brilhantes a entrarem na politica pq simplesmente as pessoas desistiram da politica. E’ a abstencao que leva ‘a corrupcao quase ‘as claras pois ng quer saber nem analisar nada, etc. Ainda achas que nao e’ razao para preocupacao? Para mim, uma democracia com 20% de votos nao faz sentido. Ja’ estivemos mais longe.
Alexandre, estas a pegar em detalhes. Os jornalistas falam com quem conhecem pessoalmente e mantem relacoes mais estreitas. Nao faz sentido ela telefonar para o publico para escrever 3 linhas no seu artigo… Nao me parece que ela nao saiba que o CM e’ um tabloid como ela diz. Ao mesmo tempo, nao me parece que a pessoa do CM nao consiga dizer coisas decentes.
Francisco, temos opcoes divergentes mas concordo em parte contigo. Deixei de discutir politica com pessoas que nao votam. Talk the talk, walk the walk. Como emigra nao pude votar no entanto.
Tambem preferia resultados vinculativos. Teria sido muito melhor a todos os niveis. Ainda querem que nao nos preocupemos com a abstencao?
Bruno, a mim preocupa-me a abstenção, claro. Só acho as leituras que andam para aí a fazer que não podem ser leituras que digam que não foram votar porque acham que há coisas mais importantes para serem discutidas. Todos sabemos que a maioria que não vai votar é porque simplesmente se está nas tintas (para não dizer depressa e bem uma outra palavra) para tudo o que tenha o menor cheiro a política. Mas é preciso filtrar o que se ouve e o que se lê.
Pedro, não é o voto que devia ser obrigatório. Como é que fazias isso? Antes disso o voto deveria ser electrónico e deveria ser possível votar em qualquer ponto do país, com retroactivos para a nossa freguesia, claro. Só isso também resolvia uma grande parte da abstenção, todos sabemos neste país que devemos ter uma grande fatia de pessoas a viver em grandes centros mas cuja morada ainda é na terrinha (com rendas ilegais, não há morada nova…). E não há dinheiro para ir lá de propósito votar!
Bruno
Obviamente eu também não, mas por alguma razão referi a profissão da pessoa em causa, para que percebesses o nível de instrução. É gente simples, com a 4ª classe, se tanto, não se pode esperar propriamente um raciocínio perfeitamente lógico a nível de enquadramento político. O que me parece é que é um bom retrato do país profundo, pouco culto e educado, e cuja construção de posições não se afastará grandemente da que descrevi.
É engraçado o preconceito que se tem das pessoas com menos educação, a necessidade de quem estuda sentir que é mais evoluído. Eu sempre vivi na província, trabalho numa fábrica onde convivo com todo o tipo de pessoas e posso assegurar que se pode aprender muito com todas as pessoas independentemente do grau de instrução. Às vezes uma mente menos “educada” tem uma visão muito mais transparente das coisas pois não tem o espartilho do “politicamente correcto” ou do não vou dizer isto porque não é “in”. às vezes é preciso alguém dizer que não está certo ou não é aceitável.
Durante a discussão deste referendo nunca vi tanta gente a ir no rebanho do ser evoluído ou ser moderno, sem sequer parar para pensar no que estavam a fazer…