Eu sabia que nao conseguia resistir… Aborto redux
by bruno
Pois bem, o meu amigo respondeu-me:
Bom…não me vou alongar sobre o que tu disseste caro Bruno…
Prefiro pensar na humilhação dos bébés que esses sim não têm direito a
nada segundo a lei que para ti deve ser muito progressista…embora
seja óbvio que não é assunto fácil para muitas mulheres…
Mas não é nos tempo dificeis que se vê a grandeza humana
particularmente a feminina neste caso???
Enfim…acho piada chamar retrógado um movimento a favor da vida…
Abraços e votem bem…
Eu nao resisti a responder-lhe (aqui com ligeiras alteracoes):
–
Amigo, fui demasiado curto no meu primeiro email…
Os bebes nao podem ser consideradas entidades humanas pois ainda nem sequer tem um sistema nervoso central funcional bem como outras caracteristicas que realmente definem o ser humano. Mas esta definicao e’ pessoal e por isso mesmo de alguma forma intransmissivel a outros. A tua nocao de vida e’ diferente da minha como de outra pessoa qualquer pois extravaza qualquer nocao puramente cientifica (e isto e’ um biologo que te escreve…). Por outro lado, nao e’ isto que esta’ em discussao, mas sim se a mulher deve ser julgada e penalizada. Nada mais. E este e’ o erro de grande parte das pessoas, discutirem algo que nao esta’ a ser levado a votos.
Achar que a penalizacao das mulheres as vai fazer mudar de opcao quanto a abortar ou nao e’ do mais ingenuo possivel. As mulheres abortam em portugal como abortam em qualquer lado do mundo. As mulheres em Portugal quando chegam a ir a julgamento nem sequer sao condenadas a nada na pratica. Este referendo e’ apenas a formalizacao do que a sociedade ja’ decidiu inconscientemente e que nao foi formalizado porque o ultimo referendo foi realizado em plena altura de pico balnear.
O movimento pelo “Nao” parte do principio que as mulheres na sociedade de hoje em dia vao mudar e deixar de abortar em funcao da lei actual. Isso esta’ profundamente errado e so’ mostra uma descolagem total do que e’ a realidade portuguesa, especialmente nos ambientes desfavorecidos. Muitas das pessoas que tu ves nos movimentos do sim se calhar foram a espanha abortar numa clinica privada e de luxo. (este sketch do gato e’ comico mas se calhar cheio de verdade)
As mulheres nao vao deixar de abortar e esta lei apenas penaliza as mulheres que abortam e nao tem dinheiro para contornar o sistema. Eu vi no Porto uma mulher a esvair-se em sangue na rua a 100m do hospital de Sto Antonio. Tinha abortado provavelmente numa esquina ou num andar do predio da rua. Esta visao colocou toda uma realidade que eu tinha numa perspectiva diferente.
Nao subestimes as mulheres que abortam e nao tentes impor-lhes moral. Nao tens autoridade para o fazer (nem tu nem ninguem). Eu nao sou mulher, mas imagino que deve ser a decisao mais dificil e marcante da vida de muitas mulheres que abortam. Claro que ha’ mulheres para quem isto nao se aplica mas tambem ha’ pessoas a quem nao lhes faz diferenca matar ou aleijar seres humanos. No entanto, a esmagadoria maioria dos seres humanos que podem abortar – leia-se mulheres – sao pessoas a quem este assunto – caso seja colocado em cima da mesa – ira’ provocar uma profunda reflexao pois fruto decisao surgem marcas para toda a vida, independentemente da opcao. Achei bastante pertinente as entrevistas que a TSF fez num especial deles a respeito deste assunto.
Falar de um “movimento a favor da vida” e’ algo abstracto e etereo. Na realidade, a favor da vida da crianca ou da mulher neste caso concreto? Se for da crianca pq e’ que estes movimentos nao promovem com a mesma pujanca uma lei que obrigue o estado a dar apoio psicologico e financeiro a qualquer crianca portuguesa ate’ aos 18 anos de idade? E aqui podiamos pedir mais 500 leis. Se a sociedade quer condenar as mulheres que abortam entao tera’ que proteger ao maximo as consequencias *praticas* disso. E talvez seja por ai que se deva comecar, por proteger as criancas de mulheres “moralmente correctas” que nao abortaram e cujas criancas estao na rua a venderem droga ou a prostituirem-se para ganharem para comer.
Moralmente, eu tambem acho que todas as criancas deviam nascer e nao devia existir necessidade de recorrer ao aborto. Sinceramente, conheces-me e nao te estou a mentir. Eu gostaria que nenhuma mulher realizasse um aborto em toda a sua vida. No entanto, nao e’ isso que esta’ a ser discutido. O que esta’ a ser discutido e’ se as que os realizam devem ser penalizadas. Nada mais. E isso ja’ a sociedade decidiu ha’ muito, apenas e’ necessario passar ao papel.
A moralidade nao se impoe com leis e este assunto e’ um exemplo perfeito disso. As mulheres portuguesas abortam diariamente. A despenalizacao apenas vai permitir ‘as mulheres menos afortunadas que o facam em melhores condicoes. Nao e’ esta lei que vai fazer com que as mulheres abortem mais ou menos, isso e’ gritantemente ingenuo. Esta e’ uma decisao pessoal que se baseia em principios morais e eticos, todos eles basilares ao ser humano. E’ por isso mesmo que estes argumentos sublimam qualquer lei da sociedade ‘a qual se pertence quando chegar a altura da decisao.
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isto foi escrito de rajada…
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Comments
Bom post! ;)
Carissimo Bruno…. Long time no see….
A tua visão científica e de anáilse um pouco fria do mundo, das sociedades ou do ser humano em si, ao mesmo tempo irónica , que sempre me chamou a atenção em, surpreende-me agora pela lógica racional em boa harmonia com o sentimento de humanidade.
De facto o simplista movimento do Sim pela vida, ou Não ao aborto tem mto que se lhe diga… fazia falta de facto um sem número de leis, apoios e incentivos tão difíceis de conseguir em Portugal para todos aqueles que quisessem optar pelo sim á vida… Mas a realidade não é esta… E é uma crueldade pensar que jovens mulheres ou mesmo as mais maduras tomam uma decisão destas de ânimo leve… e garanto que tal como mtas outras situações acaba por ser um fantasma para toda uma vida… É verdade que se assombra a eterna pergunta… Será que fiz bem? Como seria agora se….e tantas outras, mais complexas aindas…. Mas bem… é assim…
Se em países europeus onde a mentalidade e sociedade dita mais evoluída e aberta e tudo mais que a nossa ( como os países nórdicos ) há 1001 apoios e incentivos para apoiar famílias, a IVG (Interrupção Voluntária de Gravidez) faz se diariamente com apoio médico, psicológico e legal necessários, qto mais na nossa em que vivemos dias cada vez mais dificeis e a decisão de ter um filho se torna um dos maiores dilemas de um casal que quer fazer vida com ” tudo a que tem direito”….
Não é justo condenar quem já se condena a si próprio por uma decisão dessas.
Justo seria de facto termos como sociedade, como país ( até porque segundo apontam as estatísticas, estamos a precisar de um rejuvenescimento urgente), condiçoes para apoiar aqueles que em situações mais complicadas tivessem todo o apoio para poder ter uma vida digna, deixando vir ao mundo quem já está á espreita… Mas até lá.. despenalização e apoio deveriam ser não uma complicação mas uma obrigação, um dever do estado… porque também temos que o ter para com “Ele”….
Porque não se condena o Estado a falta de cuidados com as juvens mães, com os doentes e sós idosos, com tantos sofredores estudantes, com tanta coisa??????? Porquê??????
Depois de termos uma estructura mental, social e económica que permita a maioria das mulheres poder optar pelo Sim á vida… então sim, nessa altura será justo questionar ás mulheres ou meninas… Porquê.. qual a razão que justifica, será o melhor passo? Até lá, falam a maioria pelo conforto familiar, intrução e educação que afortunadamente usufruem, não tendo nunca passado por dificuldades ou crises sérias que vivem mtos diariamente…..
Porque não vão para as ruas dar apoio a quem precisa? Porque não tiram do vosso bolso e vão comprar uma latinha de leite em pó para uma criança e um pacote de fraldas para pôr em casa de alguma jovem mãe, possivelmente solteira e sem apoios que precisa? E os remédios para a dor de dentes? E os produtos para o banho da criança?.. Já para não falar na banheira…. E a roupinha?… criança cresce mto rápido caso ainda não tenham reparado!….e o peixinho fresco para lhe fazer a sopinha ou a carne mais tenrinha e da melhor qualidade para se ir alternando? E tantos pequenos pormenores, que quem não pode contar com ajuda de família, porque esta pôs essa vergonha e irresponsabilidade fora do prato, ou que tem um paio mais presente possível, mas que qdo tem trabalho ganha pouco para ajudar numa renda, qdo já tem a de sua mãe atrasada e tb sem comida em casa?????
Saberão mtos de vós o que é isto? E não é do pior… Porque nas alturas mais difíceis há de facto outras famílias que se criam para apoiar…
Mas eu vivo com uma menina, jovem mãe, neste momento com 20 anos. Que mesmo deixando de estudar, saindo de casa dos pais para não ter que viver com a chamada de atenção e dedo apontado todos os dias, teve a coragem de optar pelo sim… porque teve uma ou 2 ou 3 amigas como eu, que dissemos deixa vir. Estamos cá. Assim como o pai. Não vivem juntos, tentam ser amigos nesta etapa… Não a consegue ajudar mto, mas pelo menos dá atenção ao filho sempre que pode…
Mas seria justo condenar o não num caso semelhante como tantos há? E piores claro… porque parte das histórias de csda um ficam por dizer, tal como fica neste caso.. não há necessidade de alongar mais…
Portanto caros juízes da dignidade humana…. Se quiserem contribuir para quem com tantas dificuldades convive com o sim, eu estou cá para receber tudo aquilo que tiverem para ajudar… O bébé tem 8 meses…. Isso sim é coragem de enfrentar e partilhar para que o sim possa persistir… Informem-se (os que não são pais) de tudo aquilo que uma criança destas pode precisar… fico a aguardar a coragem e o amor pela humanidade…
Diana, muito obrigado pela tua contribuicao. Este blog ja’ valeu apena existir por este teu texto.
beijinho grande
Olá a todos,
O ideal cívico compele-me a deixar-vos a minha opinião, velha de quase dois anos, mas à qual não retiro ou acrescento uma vírgula.
Um abraço,
Afonso Gaiolas
Sexta-feira, Abril 22, 2005
Referendo sobre o aborto, ou um aborto de referendo?
Diz-se daqueles que, apesar de receberem contínuos sinais de recusa das fêmeas que tentam cortejar, apesar de engolirem mais sapos do que as margens da ribeira de Cobres albergam, se insinuam de tal forma insistentemente que a conquista do troféu se dá pelo cansaço, diz-se, dizia eu, que a façanha foi conseguida por “esmagamento”.
Serve esta analogia para ilustrar o que me parece ser o pensamento de alguns sectores da nossa sociedade face à problemática do aborto em Portugal.
Merece o assunto as controvérsias de proporções bíblicas que proporcionou nos últimos tempos?
Tudo isso e muito mais.
Penso, contudo, que muito se tem rematado, mas continuamente ao poste, poucas vezes se discutindo o que realmente interessa debater.
Vou começar pela própria palavra ABORTO – Acto ou efeito de abortar. Nunca o dicionário refere a aniquilação de um ser como significado da palavra, mas ao invés, define-a como a expulsão do feto antes do fim da gestação, ou ainda “o que nasceu (começou a ter vida exterior) prematuramente”.
Curiosa esta diferença conceptual de vida exterior e interior, tão curiosa que nalgumas comunidades que não a nossa, de desenvolvimento imaculado e mãos sempre limpas, se considera a contagem de ambos os períodos na idade das pessoas.
Todos consideramos como o mais hediondo dos crimes a eliminação de um ser recém-nascido. Pois bem, construamos uma simples fita de tempo. No intervalo temporal D+x (sendo D o momento do nascimento e x qualquer período que escolhamos (1 mês, 1 ano, 10 anos, 100 anos, …), a palavra assassínio estará sempre presente, se decidirmos aniquilar um ser humano em qualquer destas idades. Mais complexa se torna a análise se trocarmos o sinal da adição pelo da subtracção. A partir de que momento consideramos estarem reunidas todas as condições para que, em consciência, possamos afirmar existir VIDA? Pensar demasiado sem conhecimento científico suficiente, torna angustiante a busca de respostas. Confesso que foi o que me aconteceu. Tanto mais que a proliferação de artigos sobre o tema em causa só torna ainda mais nebulosa a formação de uma opinião. Uma fracção de segundo, um dia, dez, doze, dezasseis semanas ou nove meses?
Defendo que as leis de um país se devem reger pelos valores morais que os seus cidadãos consideram ser os correctos, nunca se devendo ceder à tentação de resolver um problema com outro problema. Não me serve portanto o argumento da falta de informação, da má qualidade das instituições de solidariedade social que prestam a educação a quem não pôde ser acolhido por uma família, da inconveniência temporal, ou qualquer outro de cariz similar.
Em coerência devo portanto afirmar que, sendo o valor da vida o mais importante na escala das pertenças individuais, a partir do momento em que cientificamente me provarem que a centelha existe, devem ser repudiados todos os actos contrários ao seu desenvolvimento e maturação.
Pois, pois, centelha é muito vago…
Estava só a tentar ganhar tempo para que o meu cérebro me ajudasse…
Disse cérebro?
Se trocarmos um rim, continuamos a ser nós próprios?
Concordam que sim!
Se trocarmos de coração, continuamos a ser nós próprios?
Concordam que sim!
E se trocarmos de cérebro?
Eu convictamente penso que não. Acredito aliás que a verdadeira fonte de longevidade para os seres humanos reside na substituição de “componentes”, preservando ao máximo o único insubstituível – o cérebro.
Reside aqui portanto a resposta à minha pergunta.
É verdade que no momento da concepção, potencialmente temos uma vida a ser gerada. Mas estamos ainda no domínio das células indiferenciadas, e a verdade é que, mexendo os cordelinhos certos, ou errados, conforme o ponto de vista, podemos gerar uma miríade de monstruosidades que com a vida nada têm em comum. Não considero portanto que os inúmeros bancos de embriões existentes pelo mundo sejam imorais, uma vez que a essência de cada ser individual ainda não existe – que o cérebro ainda não se formou.
Parece ser cientificamente aceite que todos os principais componentes do cérebro são claramente distinguíveis praticamente cinco semanas após a concepção. Assim sendo, em nome da coerência, até essa data (ou qualquer outra mais precisa que cientificamente seja acreditada) não deveria ser criminalizada, penalizada, ou sequer moralmente condenável a decisão de inviabilizar a evolução do embrião. Dentro deste período, englobar-se-iam os casos excepcionais já previstos na nossa legislação, exceptuando claro o risco de vida para a mãe. Para a análise de malformações, ter-se-ia que fazer um esforço, grande, é certo, mas realizável se bem direccionado no sentido de, por análise genética, se determinar o mais precocemente possível a sanidade de cada futuro ser humano.
Tendo tornado clara a minha posição, resta-me tecer um comentário, necessariamente cáustico ao slogan “A barriga é minha, faço dela o que quiser!”, e outras idiotices do mesmo calibre, que só tornam ridícula a posição de algumas mulheres, que pensam ser este o cavalo de batalha final contra a opressão masculina. É verdade que é o indivíduo do sexo feminino o veículo hospedeiro do novo ser que está a ser gerado, e que provavelmente é o acto mais nobre a que alguém poderá em toda a sua vida aspirar, mas isso não tira o direito e simultaneamente a responsabilidade do homem perante o seu filho. Deveríamos pois ver ambos os progenitores condenados pelo acto abortivo, se existisse o conhecimento da acção, mas pela mesma ordem de ideias, negar a unilateralidade materna na decisão de continuar, ou não, com o processo de gestação.
Quanto aos direitos sobre a barriga, esses são inalienáveis (embora algumas devessem receber mais conselhos sobre estética), mas quando se trata da geração de um novo ser, ainda e sempre reaparece o velho, mas sábio conceito, que sumariamente nos lembra que a liberdade individual termina onde começa a liberdade de terceiros.
Decidam em consciência!